Carta Mensal
Maio de 2024

Mercado Internacional
Em maio, o cenário macroeconômico dos Estados Unidos apresentou dados mistos mais uma vez. Mas o que isso significa exatamente? Se por um lado os dados preditivos da indústria e o relatório ADP de empregos no setor privado mostraram uma acomodação da atividade econômica, do outro, o Payroll, principal indicador do mercado de trabalho americano, surpreendeu positivamente com a criação de 272.000 vagas (gráfico abaixo), além de uma nova alta dos índices de crescimento salarial e indicadores de serviços que ainda mostram expansão.
Ao longo do mês vimos os mercados adequarem suas taxas na curva de juros, com a parte mais longa da curva esboçando um fechamento, beneficiando os mercados de risco, enquanto os vértices mais curtos fecharam o mês de forma muito parecida com abril. Ou seja, ainda se espera que o FED inicie seu ciclo de afrouxamento monetário em meados de setembro deste ano, com um ou dois cortes de juros de 0,25%, levando a Fed Funds ao patamar de 4,75%-5,00% a.a.
Do lado da bolsa, o mês encerrou-se de forma positiva com o S&P500 em alta de quase 5% e muito próximo de sua máxima histórica. O desempenho positivo pode ser explicado em parte pelo fechamento das curvas longas que descrevemos acima e em parte pela excelente temporada de resultados do primeiro trimestre reportada pelas empresas. Para se ter uma ideia, mais de 80% do índice superou as estimativas de lucros dos analistas com destaques para os setores de consumo discricionário e comunicação que englobam as principais teses de tecnologia e inteligência artificial.
Já na esfera política, a condenação do ex-presidente Donald Trump no júri estadual de Nova York adicionou tensão às eleições que se aproximam em novembro. Ainda que a condenação não afete uma possível vitória de Trump nas urnas, o caso deverá ser explorado pelos democratas durante a campanha de Biden pela reeleição e poderá eventualmente trazer novidades nas próximas pesquisas eleitorais.
Na Europa, já no início de junho, o Banco Central Europeu promoveu seu primeiro corte de juros de 0,25% levando a taxa básica para o patamar de 3,75% a.a. O movimento já era amplamente esperado pelo mercado dadas as condições mais favoráveis de inflação em franca desaceleração e melhora, ainda que marginal, da atividade econômica por lá. Por hora, espera-se que o BCE siga dependente de outros dados favoráveis para continuar o ciclo de cortes. Ainda assim, enxergamos o movimento como um passo importante para a retomada da atividade econômica no bloco e parece-nos que adentramos taticamente em um momento mais interessante para os ativos Europeus. Em termos relativos, vemos um bloco desenvolvido que, apesar de crescimento mais baixo que os EUA nos próximos anos, parece apresentar uma dinâmica de inflação mais favorável associada à múltiplos de preços em patamar mais baixo.
Já no mundo emergente, decisões eleitorais foram destaques do mês de maio. Na Índia e no México vimos eleições presidenciais que mantiveram o status quo em termos partidários, mas surpreenderam os mercados pela falta e excesso de apoio conquistadas nos congressos, respectivamente. Na China, a dinâmica do setor imobiliário continuou trazendo dados que reforçam o tamanho da crise enfrentada pelo governo. No último mês, pacotes para compras de imóveis desocupados por parte dos governos regionais foram anunciados, mas ainda insuficientes para a melhoria nos preços das casas e, consequentemente, na confiança do consumidor chinês. Seguimos a espera de novos estímulos por parte do governo para uma maior convicção de que a transição da matriz econômica chinesa irá funcionar para sustentar altos níveis de crescimento no longo prazo. Do lado positivo, a pujança de atividade em alguns dos mais importantes parceiros comerciais chineses como EUA e Europa têm auxiliado nos dados de exportação.
Mercado Local
No Brasil, a dinâmica dos ativos de risco segue perdendo espaço frente às preocupações dos mercados com nossa responsabilidade fiscal. O mês de maio foi marcado pela repercussão intensa das alterações promovidas pelo governo nas metas de resultado primário para os próximos anos além de mudanças na presidência da Petrobrás que impactaram diretamente na performance do Ibovespa, encerrando maio com uma queda de -3% e que já acumula um resultado negativo de -9% esse ano. Ainda com relação à situação fiscal, a grave questão das enchentes no Rio Grande do Sul foi responsável por adicionar incerteza no tamanho do gasto público necessário para reconstruir o estado e auxiliar a vida das inúmeras famílias afetadas pela catástrofe.
Na ponta positiva, a situação corrente de atividade e preços segue em dinâmica benigna. A última divulgação de dados do mercado de trabalho brasileiro mostrou um novo recuo da taxa de desemprego para 7,5% e uma criação líquida de vagas de trabalho de 240.000. Além disso, a inflação medida pelo IPCA, acumula alta de 3,70% com boa composição em seu núcleo, que desconsidera preços mais voláteis. Ainda sob a ótica da atividade, o dado de PIB do primeiro trimestre voltou a mostrar um crescimento expressivo de 0,8% influenciado pelo aumento no consumo das famílias em decorrência dos programas de transferência de renda, aumento do salário-mínimo e pagamento de precatórios no início do ano.
Olhando para frente, as recentes revisões negativas para a situação dos gastos públicos seguem elevando as expectativas de inflação futuras para patamares mais próximos da banda superior da meta perseguida pelo BCB e continuam minando as chances de novos cortes na taxa Selic. Além disso, o crescimento agudo do sentimento de uma divisão política entre os membros votantes do COPOM também se mostra prejudicial para a condução da nossa política monetária a partir do ano que vem.

Seguimos vendo com preocupação os efeitos desses eventos para a inflação brasileira nos próximos anos. Como já comentamos anteriormente em nossas cartas, sabemos que no Brasil a elevação de gastos públicos costuma traduzir-se em elevação da demanda agregada, que por consequência gera aumento nos preços. Nesse sentido, as curvas de juros nominal e real demostraram um forte movimento de abertura nos últimos meses. Em nossa avaliação, o cenário de médio prazo para o Brasil tem se tornado menos construtivo para ativos de risco e nossas preferências de alocação refletem uma percepção mais atrativa para ativos de renda fixa, especialmente os indexados à inflação que poderão proteger os portfólios caso uma piora nos níveis de preços se materialize.
Agradecemos mais um mês de confiança em nossa gestão e seguiremos sempre focados no planejamento e geração de valor a longo prazo. Nas próximas páginas, compartilhamos nossos vieses de alocação resultantes de nosso último comitê de investimentos e breve comentário das decisões.
Atenciosamente,
Equipe Ethos.